Resistência sertaneja: perseverança em meio à seca

Resistência Sertaneja, título deste trabalho, resume a história de Chico Gomes

Em 2012, a reportagem do Diário do Nordeste percorreu o sertão cearense para mostrar a estiagem que assolou o Estado, uma das maiores que o Ceará já vivenciou. Na ocasião, entretanto, não se imaginava que aquele era apenas o primeiro ano de um ciclo sem chuvas favoráveis que perdura até hoje. Para especialistas, é a maior estiagem prolongada de toda a nossa história.

Cinco anos depois, percorremos os mesmos locais em busca dos antigos personagens para mostrar o que mudou na vida deles daquele dia até a atualidade. Em algumas comunidades, onde a água poluída e até fétida era utilizada para consumo humano, a situação sofreu uma metamorfose; hoje, a população tem água da melhor qualidade. Agricultores e criadores buscaram diversificar sua produção para fazer face à estiagem sem grandes prejuízos.

Em contrapartida, o Açude Castanhão vive dias de agonia. No volume morto, o manancial, que responde por parte do abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), está prestes a secar por completo. Reflexo dessa inclemente ação da natureza recai sobre a cidade de Jaguaribara, edificada para ceder suas antigas terras para o açude.

Resistência Sertaneja, título deste trabalho, resume o que encontramos. A certeza de que nenhuma adversidade, por mais atroz que possa ser, é capaz de superar o sertanejo. Como a história de Chico Gomes.

“Comecei a trabalhar com 12 anos, ajudando o meu pai. De lá até hoje, não parei mais. A melhor coisa do mundo é ver a mesa cheia, com fartura. E, graças a Deus, isso nunca me faltou”, diz o agricultor Francisco Gomes de Souza, o Chico Gomes, 75, morador da comunidade do Moringa, em Nova Russas. A labuta de seu Chico não é intermitente. Todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, ele se desloca uma légua para a lavoura a fim de trabalhar a terra, prepará-la para o plantio no período que se avizinha.

“É daqui que retiro o feijão e o milho para alimentar a minha família. Não tem essa história de tempo ruim comigo”, ressalta seu Chico, que se ressente de dores no joelho e já não consegue enxergar muito bem, consequências de um trabalho duro, debaixo de um sol avassalador. “A roça, para mim, é vida. Trabalho porque tenho espírito para isso. Sei que vou morrer um dia. Quero que seja aqui no roçado, perto da terra, onde passei a maior parte da vida”.

De posse da sua inseparável foice, seu Chico diz que, para recuperar o tempo perdido, só tem uma alternativa: “trabalhar mais do que o normal. É gente como eu que sustenta esse Brasil. Enquanto muitos não fazem nada, ficam de braços cruzados, esperando as coisas caírem do céu, nós, agricultores, vamos colocando comida na nossa mesa e na dos outros. Como seria se não fosse dessa forma? Se depender desse povo novo, que só quer saber de internet, não sei como vai ser no futuro”, questiona, ao citar que nenhum dos três filhos optou por seguir o seu caminho na lavoura.

Para seu Francisco, o período que compreende os últimos seis anos foi o pior do qual tem lembrança em termos de escassez hídrica. “Sempre acontecia de chover um ano sim, outro não. Agora emendou por um logo tempo. É muita dureza. Mas a gente não pode desistir. Quem cai tem que se levantar e dar a volta por cima. Já perdi muita coisa na lavoura. Também, por outro lado, já ganhei bastante. Essa é a conta da vida, perdendo aqui, ganhando acolá…”

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