Mar avança e isola Praia de Barreiras de Cima, em Icapuí

A proximidade entre a Lua e a Terra provocou o aumento das marés e o avanço do mar sobre o continente

Icapuí. Em tempo de super lua, o mar voltou a avançar nesta semana no Litoral Leste do Ceará. Este Município, que tem praias já desfiguradas pelo processo extensivo das marés, viu a água chegar onde nunca havia.

Em poucos minutos, por volta de 17h20 de segunda-feira, o fim do “corredor do Manel de Otávio”, estrada que liga a Praia de Barreiras de Cima ao Centro, foi tomada pela maré alta. Veículos mais altos, como ônibus, ainda conseguiram realizar a travessia recém-alagada. Carros menores tiveram que voltar. Mas até 18h ninguém mais ousava: a comunidade ficou com acesso apenas pelo outro lado da cidade. Ontem a situação era semelhante.

Segundo moradores, é a primeira vez que a maré chega com tanta força nesta parte do Município. “É a natureza pegando de volta o que é dela”, proclamou a marisqueira Tereza Soares. O pescador Marcos Marques Júnior disse que o avanço das ondas, ultrapassando áreas de aterramentos de postes de iluminação, aumenta riscos de queda da estrutura.

Entre ondas mais fortes e mais fracas, algumas pessoas ainda se arriscaram a atravessar de moto ou de bicicleta. A cena era típica de uma cidade do sertão quando sofre transbordamento de lagoas no período chuvoso, não fosse um litoral.

Em 2008, a comunidade de Barrinha viu casas e uma escola serem destruídas pelo avanço do mar. Uma parede de contenção do tipo “bag wall” foi construída na localidade.

A Prefeitura está acompanhando a situação, pelo histórico de vários anos de avanço do mar, para solicitar providencias junto aos governos Estadual e Federal visando o enfrentamento do problema. Até lá, é a lua vista mais próxima do céu e o mar visto mais próximo de casa.

Fenômeno

As superluas, que ocorrem periodicamente, têm influência nas marés. “A força que gera a maré tem relação inversa à distância entre a Lua e a Terra. Quanto mais perto os astros, maiores eventos de marés, aumento do nível do mar”, explicou o professor de Oceanografia Física do Instituto Labomar da Universidade Federal do Ceará (UFC), Carlos Teixeira.

A erosão na praia pode ser gerada devido a este aumento do nível do mar. “É um fenômeno normal, natural, sem relação com a questão de aquecimento global”, esclarece Carlos Teixeira. “O problema decorre da ocupação desordenada, irregular de construções (barracas, casas, hotéis) na praia, em lugar errado”, pontuou. “Há leis de zoneamento, a duna é uma área de preservação permanente, mas há construções anteriores à legislação e outras irregulares”.

O professor chama atenção para um aspecto. “Se não houvesse essas edificações irregulares, a erosão iria ocorrer, mas na duna, na praia, como vem ocorrendo, por exemplo, em Jericoacoara, sem que ninguém reclamasse”, observou. “A duna é importante porque é uma proteção natural da zona costeira”.

A cada superlua, são registradas menores e maiores níveis de marés. O fenômeno coincide com a maior aproximação entre a Terra e a Lua em sua fase cheia. O aumento da maré, aliado à força do vento e ondas, contribui para provocar erosões na zona costeira. “Seria precipitado falar que a erosão que decorre do avanço da água do mar nessas áreas tem relação com as mudanças climáticas”, reforça o professor Carlos Teixeira.

Reportagem especial

Em fevereiro de 2014, o Diário do Nordeste produziu uma série de reportagens especiais sobre o avanço do mar no litoral cearense. Na ocasião, o Município de Icapuí foi retratado como o mais castigado do Litoral Leste. Em dezembro de 2013, a Prefeitura chegou a decretar calamidade pública em quatro praias: Barrinhas, Barreiras da Sereia, Peroba e Redonda.

Só com obras para defender o continente do avanço do mar, foram utilizados recursos do Ministério da Integração Regional da ordem de R$ 20 milhões, sem se falar o que já foi gasto para remoção de famílias no programa Minha Casa, Minha Vida.

Na Praia de Redonda, a reportagem mostrou uma cena no mínimo curiosa: jangadas e veículos disputavam o mesmo espaço na pista principal, pelo fato de metade da via ter sido engolida pelas ondas do mar, assim como parte da faixa de praia. (Fonte DN)

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